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Por Que Coachs Andam Citando Tanto o Estoicismo


Por Que Coachs Andam Citando Tanto o Estoicismo?

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“O Estoicismo Quântico” — Um edifício fundado em areia e lama.


Alexandre Magno Querino A. Silva Published in Filosófica Mente 5 min read Aug 17, 2020

Photo by Tbel Abuseridze on Unsplash

Quem precisa de uma filosofia difícil e complexa, que só serve para falar bonito e inflar o próprio ego? A nova sensação é o Estoicismo Quântico, a filosofia simples e prática, basta ler e agir. Nada de pensar, hein!?

I

Nos últimos anos um profissional ganhou muito destaque, principalmente por não ser muito convencional: o coach (que significa “treinador”, em inglês). Mas que diabos é isso? Vejamos a definição do Instituto Brasileiro de Coaching:

“O Coaching é um processo definido como um mix de recursos que utiliza técnicas, ferramentas e conhecimentos de diversas ciências como a administração, gestão de pessoas, psicologia, neurociência, linguagem ericksoniana, recursos humanos, planejamento estratégico, entre outras.”

Esse profissional aparentemente lhe ajudará, com aquelas técnicas, a “atingir seu potencial máximo” e “alcançar suas metas”.

Eu confesso que entendo a necessidade de uma profissão assim. A vida nunca foi tão repleta de distrações: anúncios, propaganda, toneladas de notícias e informações, redes sociais, jogos, música, filmes, séries, etc. Tudo isso é despejado em cima de nós, consumidores, tornando difícil focar em algo nem que seja por apenas 10 minutos.

Eu não consigo cortar uma cebola inteira sem alguém ligar a TV, um e-mail promocional chegar, receber uma mensagem, ou o carro do ovo passar. Isso tudo atrapalha a produtividade e a tranquilidade de qualquer um.

Photo by Avel Chuklanov on Unsplash

II

No entanto, por mais moderno que seja o coaching e suas técnicas, há algo de antigo nisso tudo. Acompanhe-me nesta pintura.

Imagine viver numa cultura guerreira, num lugar onde guerras são frequentes e podem estourar a qualquer momento. Sua cidade pode ser invadida e você será chamado para servir e defendê-la. Eu suponho que este cenário deve ter algum efeito negativo na estabilidade psicológica de alguém.

Pense também, como seria viver como imperador. Sim, há riqueza e prazer, por outro lado, todos em seu redor conspiram contra você. Seus amigos podem querer sua morte, seus súditos lhe odeiam e podem se rebelar, até mesmo seu filho poderá lhe apunhalar pelas costas. Como suportar essa pressão e, ainda assim, continuar a fazer seu trabalho?

De modo semelhante ao que temos hoje, nos tempos antigos haviam pessoas responsáveis por acalentar e fortalecer almas alheias: filósofos. A ideia de “atingir seu potencial máximo” me lembra, de algum modo, o lema socrático que prescreve “ser a melhor versão de si mesmo”. Mesmo Sêneca e a escola estoica, que buscavam os meios para alcançar a tranquilidade invulnerável, parecem seguir o mesmo caminho.

Photo by Dingzeyu Li on Unsplash

III

Não é nada raro ver coachs citando filósofos em seus textos, inclusive, ultimamente o estoicismo está se tornando algo muito popular nesse meio. Este fenômeno não se deve somente ao coaching, mas certamente tem sua influência. Pessoas como Ryan Holiday tem trabalhado na popularização do estoicismo sob a perspectiva de ser uma “filosofia simples e prática”, e não algo desnecessariamente complexo. Entretanto, há algo de muito equivocado nisso tudo. Analisemos.

Sêneca era, não por acaso, o principal conselheiro do imperador Nero (sim, ele mesmo, o demônio). É muito comum vermos que Sêneca volta-se normalmente para questões do cotidiano: como resistir ao medo da morte, como escolher amigos e colegas, como continuar tranquilo quando a cidade está um caos, etc. E estas questões, notem, são extremamente úteis tanto a um imperador, quanto a pessoas comuns.

Mas isso não significa que o estoicismo se resuma a isso: um conjunto de conselhos práticos e alguns princípios. Esta doutrina contém também uma parte metafísica sobre a Natureza e sobre o destino. Por sinal, estoicos antigos são absolutamente deterministas, mas poucos de seus divulgadores recentes sabem disso, ou se importam com isso. Será que, hoje em dia, estariam dispostos a aceitar esta premissa?

Afinal, o destino determinado é uma das principais premissas que sustentam a ideia de que alguém deveria permanecer tranquilo em meio ao caos: não há o que fazer, o que tiver de acontecer, acontecerá.

Sêneca, por exemplo, acredita que apenas duas coisas estão sob o controle de alguém: os vícios e as virtudes. Absolutamente mais nada. Você pode escolher se será agora corajoso ou covarde, mas não deveria ter sequer a expectativa de que estará vivo nos próximos 5 minutos (ou no próximo segundo!). Nada mais está sob seu controle, então, por que se preocupar?

Sem falar na autoridade autoinduzida do sábio (o nível máximo de aprimoramento para o estoicismo). Esta é uma objeção cética clássica:

Os estoicos definem a verdade como uma afirmação que se adequa ao objeto existente, sábio é aquele que segue a verdade, mas quem pode garantir que tal ou tal afirmação adequa-se a algum objeto é o próprio sábio.

Esta circularidade é um problema epistemológico que parece pouco interessar atualmente, embora tenha sido um dos grandes pontos de debate entre céticos e estoicos.

Photo by Miguel Henriques on Unsplash

IV

Bom, meu ponto aqui não é criticar o estoicismo, mas salientar uma preocupação que deveríamos ter. O estoicismo é útil em tempos caóticos, durante crises, isso porque sua conclusão prescreve a indiferença diante dos problemas mais variados. É principalmente por isso que ele está sendo divulgado, mas não podemos perder de vista sua complexidade e seu caráter de filosofia.

A outra face do enaltecimento de uma filosofia como “simples e prática” é o descrédito de outras filosofias que não sejam vistas desse modo. Eu não diria que todos os filósofos prezam pela simplicidade como um valor, por outro lado, arriscaria dizer que pela praticidade sim! Toda filosofia, sobretudo a feita na antiguidade clássica, preza pela praticidade.

Seja o Platonismo, Aristotelismo, Epicurismo, Ceticismo, Estoicismo, entre várias outras, todas essas teorias tinham por objetivo um agir melhor, um aprimoramento.

Pinçar de uma filosofia apenas suas conclusões úteis e resumi-la a isso é o mesmo que matá-la. A beleza da Filosofia está justamente nesta troca argumentativa, na disputa de teses.

Este texto, mais que uma crítica, é um convite. Um convite para conhecermos melhor as filosofias as quais seguimos (as vezes sem saber) e nossos princípios mais básicos. Para que possamos debater, enquanto indivíduos e sociedade, como agir e como lidar com os problemas. Ao invés de apenas escolher alguma diretriz qualquer no longo cardápio filosófico que temos a disposição.

Obrigado pela leitura, espero que você esteja bem nesse momento. Tome todos os cuidados, o coronavírus não é uma ameaça teórica, é real! Se puder, fique em casa.


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