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É Por Isso Que Você Ainda Tem Péssimas Amizades


É Por Isso Que Você Ainda Tem Péssimas Amizades

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O Estoicismo pode lhe ajudar a escolher bem as pessoas que te acompanham.


Alexandre Magno Querino A. Silva Published in Filosófica Mente 6 min read Sep 7, 2020

Photo by Priscilla Du Preez on Unsplash

“Nada, pois, é mais proveitoso a uma alma do que uma amizade fiel e doce. Quão bom é encontrar corações preparados para guardar todo segredo. Tu temes menos a consciência deles que a tua própria. A conversa deles alivia a solidão. As sentenças deles se tornam conselhos. O seu gracejo dissipa a tristeza, a própria presença deleita!” (Da tranquilidade da alma, parágrafo VII, Sêneca).

Costuma-se dizer que “não escolhemos nossa família, mas os amigos sim”. Se isso é verdade, você está escolhendo bem?

Este tema da amizade é um dos vários que o filósofo estoico Sêneca aborda em sua obra Da tranquilidade da alma. Ele sugere que sigamos um critério de sabedoria, levando em conta os vícios e virtudes daqueles que nos cercam.

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UMA ÉTICA DE VIRTUDES

Para um filósofo antigo, a palavra “vício” tem um significado um pouco diferente do que tem para nós. Hoje, o significado de vício é “Dependência física ou psicológica que faz alguém buscar o consumo excessivo de algo”. Para os antigos, Sêneca incluído, o significado é parecido. O excesso é sim um vício, mas também a covardia, a intolerância, a impaciência, etc.

Se me é permitido resumir, vício é tudo aquilo que orienta alguém ao mal. Virtude, seu oposto, é o que orienta alguém para o bem.

Assim como um bêbado inveterado era reconhecido como um viciado, alguém que, por exemplo, não soubesse medir o que diz, também era. Esta distinção moral sempre foi muito importante, eu, inclusive, ainda acho bastante pertinente.

Photo by Annie Spratt on Unsplash

AMIZADES BOAS E MÁS

Estou correndo agora um sério risco de dizer algo muito óbvio. Afinal, vou recomendar a escolha das boas amizades ao invés das más. Eu sei, isso é ridículo de tão óbvio, mas é possível que, mesmo já sabendo disso, você não esteja fazendo direito.

Sêneca diz que devemos medir bem quem deve ter o direito de desfrutar de nossa presença. Isso faz sentido, mas como fazer? Acompanhe-me neste exemplo.

Vamos supor que você conhece uma pessoa, muito simpática e comunicativa. Nota, ademais, que essa pessoa gosta de estar com você, lhe convida para eventos, lhe dá presentes, etc. Coisas que “amigos” fazem.

Porém, esta mesma pessoa é conhecida por ser preguiçosa. De modo que, vez em outra, na escola ou faculdade, ela te deixou na mão em trabalhos de grupo. De modo semelhante, ela não te acompanha em seus compromissos importantes e não lhe ajuda por preguiça ou comodismo.

Mas ela continua a ser a pessoa engraçada, simpática, que adora estar com você. Você deveria preservar essa amizade?

Colocado desse modo pode parecer fácil decidir, mas observe, caro leitor ou leitora, suas próprias amizades. Examine bem e se pergunte: você deveria preservar essa amizade?

Muitas vezes somos constrangidos a manter uma relação com alguém pelo fato de ela gostar de estar conosco e por ser, como dizem, “gente boa”. Isso não me parece certo.

Não, você não é obrigado ou obrigada a manter uma amizade assim. Uma amizade deve contribuir para o crescimento de ambos, seja ele emocional, moral, profissional, ou de qualquer outro tipo.

Eu tive amigos que me ensinaram a cumprir promessas, outros que me ensinaram a importância da paciência, de acordar cedo, etc. Tudo isso é muito difícil, tenho que confessar, por isso me sinto obrigado a preservar a amizade com essas pessoas!

Entretanto, também já tive amizades que não me acrescentaram em nada, e muito pior, incentivavam minha preguiça, meu desleixo, minha irresponsabilidade, etc. Estas eu não faço a menor questão de manter, mesmo se tratando, em alguns casos, de pessoas muito simpáticas e “gente boa”.

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SABEDORIA

Para um estoico como Sêneca, a balança de vícios e virtudes é o que mede a sabedoria de qualquer um. O sábio é aquele que não tem sequer um vício. O próprio Sêneca desconfia da possibilidade de encontrarmos alguém assim, então, ele sugere que o melhor é o menos pior.

“Tanto quanto for possível, devemos escolhê-los [nossos amigos] dentre os isentos de paixões desregradas, porque os vícios entram sutilmente e passam para quem está próximo e prejudicam pelo contato” (Da tranquilidade da alma, parágrafo VII, Sêneca).

Por exemplo, é muito difícil encontrar alguém que seja imune à preguiça, mas um preguiçoso que, num momento de necessidade, move montanhas pelos seu amigos pode ser uma amizade valiosa.

Mas, para medir as virtudes e vícios de alguém, assim como para medir qualquer coisa, é preciso temperança. Temperança é uma das virtudes mais importantes para muitos filósofos antigos. Ser temperante significa saber medir, não atoa a semelhança com nossa palavra “tempero”.

Isso me leva ao último ponto de gostaria de abordar.

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OLHAR PARA SI

Como acabei de sugerir, para medir as virtudes de alguém, você mesmo precisa ser uma pessoa virtuosa. Pode ser que alguém tenha más amizades não porque só conheceu viciados, mas porque ela mesma não é virtuosa.

Amizade é uma faca de dois legumes. Suas amizades devem ser boas, mas você também deve!

O autoconhecimento é imprescindível em qualquer área de nossa vida. Examine também a si mesmo, seja sua melhor versão. Eu acredito que quando fazemos isso, naturalmente melhores amizades se aproximam de nós.

Como o próprio Sêneca diz, uma pessoa virtuosa não precisa sair pelas ruas dizendo ser sábio, pois a virtude dá seus sinais.

Do mesmo modo que uma pessoa repleta de vícios pode lhe contaminar, se você é uma pessoa de virtude, naturalmente você contaminará suas amizades. Eu perdi a conta de quantas vezes a simples atitude de dar o exemplo, por parte de meus amigos, me fez repensar seriamente minha conduta.

Normalmente, por mais controverso que possa parecer, diretamente dizer a alguém que ele deve melhorar alguma atitude é o pior jeito de fazê-lo mudar.

Talvez por isso Sócrates, o filósofo grego, assim como outros, nunca escreveu uma linha sequer. Sua conduta, sua atitude e seus valores são sua obra, e isso bastou para que seu nome ainda seja dito mesmo depois de 2500 anos.

Ler sobre quem foi Sócrates me faz refletir, querer melhorar, assim como observar as ações das pessoas em meu redor.

Pode ser que o status de sábio seja inatingível, que nunca cheguemos a tal nível de aprimoramento moral. Porém, uma coisa é certa, a caminhada em direção à virtude já é, por si só, de grandioso valor para si e para os que estão em seu redor.

Obrigado pela leitura, espero que você esteja bem nesse momento. Tome todos os cuidados, o coronavírus não é uma ameaça teórica, é real! Se puder, fique em casa.


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