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Como Ser Inteligente Sem Ser Arrogante


Como Ser Inteligente Sem Ser Arrogante

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É possível ser um estudante aplicado sem ser um palestrinha?


Alexandre Magno Querino A. Silva Published in Filosófica Mente 6 min read Feb 20, 2021

Photo by Júnior Ferreira on Unsplash

O que fazer quando você é a pessoa mais inteligente que você conhece, e está cercado de idiotas? Eis o terrível drama do acadêmico das ciências humanas.

Digamos que você esteja numa mesa de bar, cercado de colegas da universidade. De repente, o assunto da conversa descamba para algo relacionado com física nuclear.

Coincidentemente, há um estudante de física na mesa. É quase automático que, quando surge este assunto, todos olham para o físico em potencial e esperam dele algum esclarecimento sobre o tema.

Situações como esta são comuns, razoáveis, e podem ser muito divertidas, para qualquer estudante que não seja de humanas.

Lamentavelmente para alguns integrantes deste grupo, situações como essa são verdadeiros pesadelos.

Tanto estudo, tão pouco a acrescentar…

Suponhamos agora a situação inversa. Você é um estudante de ciências sociais e está num bar, cercado de colegas, e aí o assunto da conversa é direcionado para algum problema político.

Tragédia iminente!

Diferentemente do caso anterior, seus colegas não se direcionam automaticamente para você, em busca de esclarecimentos sobre o assunto.

Muito pelo contrário: todos tem algo a dizer, experiências pessoais a relatar, reportagens e notícias a citar, princípios morais a declarar, e muito mais!

É um verdadeiro soco no estômago do cientista político em potencial. Ninguém lhe atribui autoridade sobre o objeto de discussão, ninguém da valor à sua monografia sobre o assunto. Seu artigo publicado, naquela revista que tem como critério científico o potencial emancipatório da produção, agora parece sem valor.

Tanta leitura, tantos debates em corredores, tantos saraus e rodas de conversa. E agora, onde foi parar a sua autoridade?

Photo by Marvin Meyer on Unsplash

Banca boêmia de avaliação acadêmica

Alguns significados possíveis da palavra “inteligência” são:

  • “Conhecimento profundo em; destreza, habilidade: ter inteligência para os negócios; cumprir com inteligência uma missão.”
  • “Habilidade para entender e solucionar adversidades ou problemas, adaptando-se a circunstâncias novas.”
  • “Boa convivência; união de sentimentos: viver em perfeita inteligência com alguém.”

Curiosamente, este último significado é o que mais falta nos acadêmicos das ciências humanas. Não é preciso nem comentar o grau da tragédia quando também faltam os outros dois…

Conviver com essas pessoas é particularmente difícil. Qualquer conversa inocente pode ser razão para um grande discurso sobre justiça, uma explicação detalhada sobre a história da Alemanha do séc. XVIII, entre outras chatices.

Eu, particularmente, entendo. Também padeço deste sentimento latente de sair por aí ofertando palestras e minicursos gratuitos em qualquer padaria ou ponto de ônibus.

A autoimagem de pessoa inteligente é muito comum nesse contexto, o ego inflado e sensível é quase um sintoma. Suponho que a razão disso possa ser explicada a partir do exemplo do bar, citado acima. Examinemos!

A vida do acadêmico das ciências humanas não é fácil assim como parece. É uma área pouco valorizada socialmente (isso é mérito nosso, infelizmente). Recebemos menos investimento, afinal, livros são mais baratos que aceleradores de partículas. E fazemos pesquisa (na maioria dos casos) sobre coisas que estão entrelaçadas com a experiência cotidiana das pessoas, o que curiosamente gera uma feedback muito negativo do público.

Vou ofertar um exemplo.

Se discute, na área de filosofia, a possibilidade lógica da existência de entidades fictícias. Este é um tema relevante para a filosofia da linguagem.

Mas, quando um cidadão honesto e pagador de impostos se depara com um artigo científico (financiado por dinheiro público) que chega à conclusão de que “unicórnios não podem existir”, um sincero e sonoro “P#$@ que pariu!” é compreensível.

Este mesmo cidadão poderia dizer “Pagam alguém para pesquisar isso? Eu já sabia disso! Meu deus!”

O caso é que o pesquisador obtém um grau de certeza mais elevado que o cidadão mencionado, mesmo que este pense estar absolutamente certo do que diz. Porém, embora este grau de certeza seja muito apreciado no meio científico, é absolutamente irrelevante numa mesa de bar.

Diante dessa situação, quando sentamos numa mesa de bar e surge um tema vinculado diretamente com o que tanto estudamos, uma vontade de falar e mostrar que sabemos do assunto surge e nos domina! Porém, essa vontade é tolhida porque ninguém se importa muito com a opinião do cara de humanas.

Eu gostaria de dizer, sinceramente, que não há mal nenhum nisso.

Não estamos numa banca boêmia de avaliação acadêmica, estamos entre amigos e colegas, socializando. Ser inteligente, neste contexto, está mais ligado a saber se adaptar à situação e conviver bem com as pessoas do que mostrar qualquer conhecimento científico.

Se meter a dar explicações meticulosas e não solicitadas sobre política, ética, história, etc. (temas sobre os quais todo mundo tem alguma opinião formada) é arrogância pura e simples. É estar num contexto em que todos tem pontos de vista de igual valor e querer se colocar acima dos demais, apoiando-se numa formação acadêmica que pouco ou nada interessa àquelas pessoas ali presentes. Correndo o sério risco de ser apenas visto como metido a sabichão.

Ora, alguém poderia me questionar: então deveriam as pessoas de humanas se esconder, se calar, em momentos assim? Em minha opinião: é claro que não!

Há algo de interessante, muito mais divertido que uma palestrinha, que podemos fazer.

Photo by Matthew Henry on Unsplash

Ao invés de palestrar, acrescentar!

Ser uma pessoa que conhece boa parte da história do pensamento humano, que é habituado com a leitura filosófica ou que estuda teorias sociais e econômicas, não precisa ser um fardo para quem está próximo. Muito pelo contrário, pode ser bastante divertido e valoroso!

O primeiro passo é, sem dúvidas, lutar constantemente contra a tendência de ser arrogante. Experimente sempre se lembrar de que você não está numa banca, ninguém liga para os seus artigos publicados ou para quantos livros você supostamente leu. Evite, portanto, a supervalorização indevida de suas capacidades intelectuais.

O segundo passo é saber como utilizar do tanto de conhecimento que você acumula estudando na universidade, com a finalidade de oferecer aos seus colegas e amigos uma ótima experiência de conversa.

Note que sua experiência na área pode transformá-lo numa boa fonte de curiosidades históricas, fatos engraçados e teorias malucas (embora não só isso, é claro). Este pode ser um ótimo modo de ser inteligente sem ser arrogante.

Agir assim certamente é bem melhor que ser uma fonte de discursos chatos, que só servem para fazer com que as pessoas se sintam ignorantes e incapazes de debater com você, o que é um saco!

Ao invés de fingir que sabe grego ou alemão, por que não contar uma história engraçada e pertinente sobre a vida de um político ou filósofo?

Em minha opinião, o mundo, e os bares, seriam muito melhores se as pessoas de humanas fizessem mais isso.

Eu sei, eu sei, “não são só as pessoas de humanas que são chatas”. Mas o que eu posso fazer? Ao menos em minha experiência pessoal, a proporção de chatice das pessoas que eu conheço é muito maior nas que são de humanas. Além disso, esta é minha área, acho que compreendo melhor essa tendência arrogante que (todos nós) temos.

Eu ficaria realmente muito satisfeito de saber que este realmente não é um mal exclusivo de nossa área humanista, gostaria de ver alguém de outra área (seja naturais, exatas, etc.) falando sobre o assunto.

Bom, acredito que há pelo menos duas formas de encarar este texto. Ou como um simples insulto generalizado aos acadêmicos das ciências humanas, recheado de ressentimento e perspectivismo. Ou, como um convite para uma reflexão sobre nossos vícios, cometidos muitas vezes sem querer, mas que causam impactos negativos em nós mesmos e em quem está em nosso redor.

Quem sabe a simples atitude de não ser o palestrinha possa mudar a visão que o público tem de nosso campo do conhecimento, talvez até atrair novos estudantes.

Bom, independente disso ser possível ou não, ainda assim a arrogância é um vício, uma falha moral, que deve ser combatida por cada um que padece deste mal. Por um convívio melhor em sociedade, por um mundo melhor para viver.

Obrigado pela leitura, espero que você esteja bem nesse momento. Tome todos os cuidados, o coronavírus não é uma ameaça teórica, é real! Se puder, fique em casa.

Não esqueça de que os claps vão de 1 a 50!


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